“Escureceu cedo hoje”, disse-me arrastando uma das partes da cortina para esquerda. Foi muito mais uma quebra de silêncio - silêncio constrangedor que paira sempre nas salas quando a intimidade com o outro é mínima, se é que existe ou existiu algum dia.
“É!”, respondi-lhe sem muita confiança.
Iniciar uma conversa sobre a escuridão precoce do dia não seria muito agradável. Talvez para ele; não para mim que tentava colocar os fones de ouvido em evidência para que fossem notados pelo meu…, vejamos, interpelador inconveniente.
Eu nada sei sobre o tempo, sobre as voltas mais ou menos aceleradas da terra na sua rotação; nada sei sobre os fusos, sobre a lua ou, ainda, se as marés do oceano as influenciam. Só lembro do Meridiano de Greenwich porque o nome não é lá muito comum (mentira! é tão comum que me lembrei imediatamente), mas não tenho convicção alguma se é essa mesmo a grafia. Não teríamos um bom dedo de prosa. Que importa?
Que importa também usar de um pobre sujeito carente de diálogo numa sala de espera para produzir um texto sobre um tema indefinido?
Mas eu seria até capaz de apostar que se aquele sujeito soubesse que, diante da pergunta quebradora de um “silêncio de elevador”, eu matutava tanta coisa ao mesmo tempo, ele não a faria. Se ele soubesse o cansaço mental que me provocou, teria pena. Porque, caros, naquele momento, eu tentava, sem sucesso, ouvir uma música que explodia em meus ouvidos; e quando achava que o “You believe in your heart?” soava cada vez mais claro (era isso que cantavam!) vinha, ao mesmo tempo, a idéia de que “You believe in your heart?” não faz o menor sentido. (Era “You believe it in your head?”). Essa pequena questão existencial me tomou quatro minutos de vida. A pergunta que eu respondi com um singelo “É!”, mais quatro. Porque, mesmo sem querer divagar com o sujeito, fiquei curioso em saber o porquê de o dia estar escurecendo às cinco da tarde, já que o sol se fez presente e torturante durante quase toda a extensão da tarde.
Surpreendentes coisas, entretanto, acontecem. Eis que me interpelador, numa ânsia repentina (talvez o silêncio o incomodasse mais do que a qualquer outro) retirou de trás da cortina azulada um capa dura esverdeado, abriu – “página 32, canção 1”, disse – e recitou bonitas palavras que eu, por descuido, não consegui memorizar por completo. O que deu, segue:
[…] Não te afastes, meu diamante
Tolera meus encantos
Deixe que te fenda a carne
Até de todo apartá-la.
Procurou, presumo, um motivo novo para iniciar um diálogo menos monótono e foi muito competente. Ao invés agora de tentarmos falar sobre a questão da escuridão nada tardia, iniciaríamos a discussão sobre uma ontologia poética que muito poderia render. De certa forma me empolguei, guardei os fones e posicionei-me de modo menos confortável no sofá, de modo que, agora, pudesse ser notada minha atenção ao discurso.
“Não há no mundo quem discorde que são eles [os poetas] os verdadeiros conhecedores das almas e angústias humanas”. “São eles”, dizia-me o homem em pé, “que destroem e constroem caminhos e interpretam tão bem sentimentos que parecem impenetráveis”. Eu - não sei - tenho algumas dúvidas quanto a isso. Não perdi, mas perderei uns trinta minutos bem vividos por causa dessa afirmação. Poderia, sem falsa modéstia, conversar sobre o que disse o interpelador. Diria mais: diria que a afirmação proferida é, na verdade, uma adaptação de algum outro poeta.
Ah, mas deixa ele acreditar ser autor, como eu. À consulta.